domingo, 8 de janeiro de 2012

O Ermitão



Vicente Moura matou três homens na adolescência. Por achar esse número modesto, matou mais três quando adulto. As três primeiras mortes provocaram-lhe náuseas e ele vomitou após cada uma delas. Nas três últimas a reação foi  distinta e sentiu calafrios pelo corpo. Após cada crime pensava na vida, mas também na morte, essa coisa  indesejada, mas nunca esquecida. Na adolescência, marcou-o sobretudo  a inusitada excitação. Em adulto, já remisso a essas emoções iniciais, talvez o instinto o tenha feito perceber que a morte sempre próxima era tangível também para si. E o instinto, apenas ele, já que  carecia  de juízo, emitiu o sinal inequívoco da hora de parar. Vicente Moura parou. Mudou de cidade, tornou-se arredio e solitário como um ermitão. Adquiriu uma cabana e começou no insulamento de um bosque uma luta atroz contra os  fantasmas que o perseguiam dia e noite.  
Passou a demonstrar  evidentes sintomas de um homem que temia retaliações.
O sono era leve e curto, quando existia. Tornou-se um ser sobressaltado, para quem o mais suave canto de um pássaro que rompesse o silêncio instável da floresta era uma comunicação ardilosa  entre inimigos que se aproximavam para emboscá-lo. Tomava por furtivo roçar de corpos nos galhos das árvores a constante blandícia do vento nas altas franças. O ouvido alerta, já traído pela tensão constante, interpretava como passos cautelosos de um grupo de captura na serapilheira a abundante e quase imperceptível queda de folhas secas no outono. Via, com frequência, no breu da noite, homens que o queriam liquidar. Não recebia visita de espécie alguma, nem as desejava. Por duas vezes em três anos mudou de exílio após surpreender caçadores errantes em sua cabana. A cada fuga procurava brenhas menos acessíveis, literalmente tornara-se um antropófago. A solidão já não bastava ser apenas um vasto mundo desabitado de gente; desejava-a obsessivamente despovoada de sons.
Certo dia, farto da face humana, cometeu o desatino de destruir o único espelho da tapera onde vivia por temer um atentado da própria imagem. Daí em diante jamais viu um rosto humano; em seu delírio de fugitivo evitava até as águas remansosas pela possibilidade de refletir a própria imagem.
Vicente Moura não era mais coerente.
Entretanto, reclamava de si e mais vigilância, pois tudo que já conseguira parecia pouco quando lhe sobrevinham os acessos  paranóicos. Foi inevitável a reclusão voluntária como resultado natural de um demorado processo. Na mente excitada de Vicente, ela soou como a redenção. E ele não delongou tempo para concretizá-la. Valeu mais a obsessão pela vida do que a vontade de ser livre. Uma caverna inacessível, uma lapa profunda é a solução, conjeturou um dia.
Dois dias de buscas e  vezo de tapejara agradou-lhe um refúgio mais adequado num penhasco mais alto de uma penedia protetora: ali  nem as feras chegavam. Abandonou tudo na mudança para o novo retiro. Até  as armas que protegeram o prolongado êxodo ele deixou para trás. Contra o que podia acontecer, as armas seriam inócuas. Era a certeza da paz definitiva ou a premonição do fim próximo. Dizem que há homens com a faculdade de pressagiar o futuro, mas esta é outra história.
Por dois dias depois da mudança, Vicente Moura descansou o espírito e o corpo; e o relaxamento inibiu a sede e a fome. Sentiu-se um homem renovado. Até o sono estirou-se por horas seguidas. Como se sentisse intangível, sequer suspeitou que, indene à justiça humana, era vulnerável às implacáveis retaliações dos próprios medos. Aqui eles não me podem alcançar __ e um tímido e inseguro sorriso de triunfo marcou-lhe levemente os lábios.
Na madrugada do terceiro dia, Vicente  Moura não pôde fugir à dura realidade de os medos de um homem serem parte integrante de sua vida. Os fantasmas que o ameaçavam de fora começavam a devorá-lo por dentro na hora em que todo homem está indefeso: no sono. Pesadelos terríveis marcaram aquela madrugada e as seguintes. Na escuridão da caverna, Vicente não distinguia o dia da noite. Por vezes, o cansaço o prostrava e os pesadelos eram recorrentes, batendo-se Moura com valentia pela vida, nem sempre obtendo êxito. Quando morria, acordava sobressaltado. Ironicamente as várias mortes renovavam-lhe a vida. Minava-o, contudo, a irremitência dos pesadelos.
Não mais se atrevia a pôr um pé fora da caverna. Seus hábitos solífugos e as vestes negras expressavam a ânsia de tornar-se invisível para melhor combater os inimigos, caçados numa derradeira mania, escarafunchando cada escaninho de rocha. Neste exercício, escarnificou as mãos. Só o cansaço prostrava Vicente Moura, só os pesadelos o punham de pé. Sua vida passou a ser uma tormentosa sucessão de imagens desconexas do passado e do presente __ o futuro não existia __misturando crimes reais e imaginários; ele era sempre, a um só tempo, a vítima e ao algoz.
Vicente Moura não sabia, mas expiava pecados e culpas numa preparação para a morte próxima como única solução para a paz definitiva.
Em sua última noite de vida, Vicente banhou-se de lágrimas e tremeu de febre num pesadelo singular que representou a adiada batalha de um contra todos, mais avassaladora para um homem do que a decisiva batalha de uma guerra para um povo. Não levantou os olhos para encarar o homem que se aproximou para aplicar-lhe o golpe fatal, pois não tolerava a figura humana. Apenas acumulou as derradeiras forças para uma fuga desenfreada e salvadora. Correu para a saída da  caverna e lançou-se do alto do penhasco.
Acordou no vácuo, infelizmente demasiado tarde para voltar atrás.


Um comentário:

  1. Seus contos, cada vez melhores, levam nossa imaginação aos lugares descritos.
    Parabéns por essa força.
    Amo vc.

    ResponderExcluir