O
Grande Circo Místico
Hoje Tem alegria?! Tem Sim senhor!
Circo, lugar do
primeiro susto e da primeira paixão. Quadro que se projeta na memória,
lembrança irretocada que mantemos com a gente por toda a vida.
Para quem vai
assistir ao espetáculo teatral “O Grande
Circo Caipira de Cornélio Pires” , especialmente para os mais velhos, não
se pode deixar de evitar em retornar aos seus tempos de infância e para os que
ainda são crianças é inevitável o encantamento.
Baseado nas
obras literárias de Cornélio Pires, um multiartista que viveu de 1884 à 1958 e
que impulsionou a difusão da cultura caipira em todo o Brasil, o grupo teatral
Barracão da Vó remonta em seu espetáculo a história de um dos mais sensíveis
contos desse artista singular.
Hoje tem espetáculo,
senhoras e senhores! - Anunciam os altos-falantes enquanto a pequena banda
executa um dobrado. Os caminhões desfilam pela cidade, com seus palhaços
fanfarrões, suas sedutoras dançarinas distribuindo sorrisos e acenos enquanto
coloridos malabares sobem aos céus. O
circo chegou fascinando velhos e moços, povoando o imaginário de todos. O céu
agora é de lona, lona de cores vivas e berrantes, tradução da alegria e da
espontaneidade. E as palmas começam e os pés batem no piso da arquibancada, expectativa,
frio no coração, que coisa inesperada sairá de trás daquelas cortinas?
É o circo
Macário que chega triunfante em uma cidadezinha no interior de Minas.
O mundo
fascinante do Circo agora armou sua lona no teatro e se revela das cortinas uma
delirante profusão fabulísticas de contos caipiras, mesclados entre diversos
números circenses, a história baseada no conto Maria, Credo! de Cornélio Pires.
Mais uma vez a
temática caipira traz para o teatro a tradição circense. Numa viagem em que a
peça encontra o Circo Macário, ambos dando as mãos para adentrar o território
dos sonhos impossíveis. Era nos tempos áureos do picadeiro. E na lembrança da
família Macário acende o fogo de luz sobre o trapézio, os malabares estão
suspensos no ar novamente, o grande mágico tira da cartola uma surpresa e o
circo de alma ilusionista prende a atenção de todos, resistindo através do
tempo. O artista vence mais um desafio, seguem os trapezistas, o tigre
indomado, o atirador de facas, o engolidor de fogo, a contorcionista de mil
pernas e mil braços, o homem mais baixo do mundo, a coisa mais estranha do
planeta, o cão que sabe falar, a lágrima do palhaço apaixonado. Eis o mundo do
circo, falando de todas as coisas, querendo a vida melhor.
Mas um dia veio
o cinema e levou para longe o público e as suas crianças. Ninguém mais se
interessava pelo trapezista, pelo malabarista, pelas dançarinas murchas e sem
brilho. A lona era um remendo que ao cair da noite mal cobriam as estrelas. A
magia se foi. O vazio, trazido pelo vento, derruba o Circo Macário, que sem
forças contra a deslumbrante novidade do mundo que se modernizava, se arroja na
mais profunda decadência moral e financeira. Os palhaços, outrora faceiros e
gargalhantes, estão estampadas nas suas faces a maquiagem borrada pelas
lágrimas e a tétrica expressão de quem
só esperava por um fim. Tinham vergonha de si. Ninguém mais tinha paciência
para nada. O mundo se ocupava com outra coisa e hoje o povo passa e ri.
Tão tétrico o momento
que poderia facilmente ser interpretado e explorado por Augusto dos Anjos em Decadência ou por Raul Leôni, Fernando
Pessoa e Charles Baudelaire como
uma fonte idealista, um farto banquete de inspiração para Edgar Allan
Poe.
Agora era acender
a luz das lamparinas, entre figurinos rotos e mãos trêmulas, ainda valia a pena
sonhar! Mas até mesmo para sonhar não havia forças. Era a realidade pungente e
cruel de um mundo que se tornara vil e ingrato. Mas as lembranças, as boas
lembranças, essas sim lhe serviam de elemento encorajador para seguir... Seguir
sabe se lá Deus para onde!
Lembranças de um
paraíso chamado Circo, e o que viam era um espaço pequeno demais para tanta
alegria; havia luzes, brilho, som, uma festa enfim. O coração de cada pequenino
estava acelerado pela expectativa, e apertavam a mão dos pais com força, como
se pudessem adiantar o relógio com esse movimento.
A festa recomeçou!
E felizes
desfilaram reis e rainhas, na figura cômica dos palhaços, na imagem trágica do trapezista, na ternura
que pairava no olhar das dançarinas e no equilibrista, desfilaram enfim,
aqueles que são reis da alegria, que conseguem comover uma criança, enternecer
um velho ou fazer os dois rirem.
Ontem aqui,
havia um parêntesis do mundo, um pequeno espaço onde o que prevalecia era o ser
humano, onde não se falava em guerra, em crianças abandonadas, porque nenhuma
estava abandonada, onde a política não existia, porque a política não é mais
uma ciência de homens, apenas uma máquina de fazer monstros; ontem aqui, era
possível ser feliz. As crianças estavam com seus pais, coisa tão rara em nossos
dias, e os seus rostinhos brilhavam como se fossem fluorescentes, talvez porque
se sentissem importantes, privilegiados pela presença de pessoas que se dedicavam
apenas a fazê-las sorrir. Os homens,
sempre tão compenetrados em fazerem juz ao sexo masculino, ontem aqui, eram
apenas "gente"; gente que ri, que chora, que sofre, que perdoa, gente
que vive. E as mulheres... Ah! Benditas eram! Estávamos todas ali, sem panelas,
sem relógios, sem vassouras, só com a pequena parte que lhes cabe de distração.
E tiveram também seus reis e suas rainhas, tiveram também suas fantasias...
E hoje os Macários voltam. E havia um espaço
tão grande! Impressionante como a
tristeza tem poder sobre o tamanho! Como ela pode transformar um cubículo em
infinito!
Voltam
trapezistas, dançarinas, luz, cores, magia, misticismo... Reacendem os palcos.
Som de aplausos! Bravo!
As vozes e as imagens
do passado estão para sempre perdidas. Mas a lona ficou. E agora, dentro das
sombras, eles sonham com seus mortos. O silêncio... As poucas luzes ajudando os
trabalhadores a destruírem o que sobrou da alegria. As pessoas cabisbaixas
andando pra lá e pra cá. A geral sempre tão frenética, amontoada num canto,
entulho apenas. O trapezista, nada mais que um homem, igual aquele que senta no
bar e bebe cerveja todos os dias. A moça da lira, sentada na porta do circo,
sanduiche na mão... E o mágico, de mãos tão suaves, movimentos ágeis, de
repente está ali, carregando cadeiras, consertando motores, não é mais um rei. O
rei está na mala, carregada com esforço pelo acrobata suado.
Tudo acabou. O
circo acabou.
Mas um dia uma
nova esperança entrou no picadeiro empoeirado. Ela veio pelas mãos de um
misterioso matuto que propõe a família Macário uma saída para suas dívidas e
desolamento. Há um novo alarde na cidade próxima quando, de repente, o circo
Macário anuncia que a sua nova atração prometia grande acontecimento. E o
moleque jornaleiro,descalço e de pernas magras, afoito e risonho, anuncia que a
uma misteriosa e mística figura estava
na cidade: O Come Gente!
Seria o
ressurgimento da glória do Circo Macário?
Entretanto a
história da decadência desse Circo Macário apenas serve como um pano de fundo
para ilustrar a força do caipira brasileiro, pelo ponto de vista de seu maior
incentivador, Cornélio Pires, pelo prisma de alguns de seus contos e ao que no
final ele sempre se apresenta como um vencedor, quase um semi-herói. Não vemos
um caipira de baixa autoestima e tampouco como um ente de estimulo para
preconceitos. Como por exemplo, a dualidade latente e distinta de dois opostos
de uma sociedade dominante, na cena Chá
para Dois, duas figuras surreais e sinistras representados por um advogado
e um médico, menosprezam a figura simples e humilde do caipira sentado diante
de uma fogueira e que lhes oferece um chá. Sem metodologia ou qualquer pretensão acadêmica, Cornélio Pires, com sua
vivência junto ao caipira de São Paulo, acabou criando a sua própria teoria
sobre os mesmos. Tentou descrevê-lo, tal como é, reagindo ao pessimismo de Monteiro
Lobato, (o mesmo que humilhou a artista Anita Malfatti) por exemplo, conforme
escreveu em Jeca Tatu, que apresentam o caipira, o camponês brasileiro coberto
do ridículo, inútil, vadio, ladrão, bêbado e idiota. Esse caipira –
assim defende Cornélio Pires – é nascido “fora das cidades, criados em plena
natureza” e, por isso, se tornam “tímidos e desconfiados ao entrar em contato
com os habitantes da cidade”. Mas são expansivos , alegres, folgazões e francos
quando “em seu próprio meio, onde, revelando rara inteligência, são mais
argutos, mais finos que os camponeses estrangeiros, referindo-se aos colonos
imigrantes. E completa: Dócil e amoroso é todo camponês; sincero e afetivo é o
caipira.
Porque para
Cornélio Pires não bastava apenas usar do academicismo literário para escrever
seus contos e causos apenas pelo pretexto de registrar uma cultura distinta
através de livros para estantes de intelectuais, dentro de uma esfera
confortável e discreta como muitos escritores de sua época o faziam. __Não!__
Era preciso ir além, para os confins do Brasil onde havia um povo esquecido e
menosprezado. E para um artista, militante ou quase um mártir da causa caipira,
essa gente precisava ser vista, reconhecida e respeitada em sua simplicidade, e
dela extrair o que de belo e bom eles poderiam nos oferecer. Era preciso ter uma
voz.
E segue o Teatro
e o Circo entre o divino e o terrestre. Real, surreal, com sua gente que não
parece gente e sim, uma tribo de anjos, de criaturas de éter, de sujeitos fora
do tempo e do espaço.
Coroa essa
quadrilogia a celebração dos dez anos de um Grupo de Teatro que traçou um
perfil bastante peculiar de pesquisas e atuações, de linguagens e estéticas que
merece ser apreciada e respeitada, sobretudo quando os mesmos que o regem para
que todo um espetáculo se torne real e
seus atores tragam a vida seus personagens, sejam eles de que natureza provir,
são oriundos pela mais pura paixão de artista em constante núpcias com o palco.
A peça consegue remeter-nos a aquele
mundo mágico que povoou o imaginário de tantas crianças de outrora e faz os
olhos dos mais velhos marejarem de saudade. A fragilidade da estrutura material
do circo se mescla à fragilidade emocional dos personagens da família Macário,
em crise existencial, em um momento depressivo em que quer largar tudo e mudar
de vida (quantas vezes não nos sentimos assim?).
E o espetáculo tem momentos do mais mágico
lirismo: cenas montadas com sabedoria e experiência, provocando a reflexão,
tocando até em Brecht e lembrando em alguns
momentos a obra prima do cinema indiano no filme Mera Naam Joker, de Raj Kaapor que narra a história de um palhaço
que deve fazer o público rir a custa de suas dores.
Para o final, a peça deixa costumeiramente a sua
mensagem maior: o que vale a pena é a esperança. Esperança que retornou à
família Macário quando a figura do Come Gente lhes devolveu os sonhos! O teatro e o
Circo, de mãos dadas pela grandiosidade de seus espetáculos, vêm celebrar
juntos a arte de sonhar acordado e manter viva a chama de nobres artistas que
promovem o riso e a alegria.
Palmas para o
Circo, gargalhada, esperança, nobreza, turbilhão!
A alegria sempre
anuncia que a vida foi bem sucedida, que fez progressos e venceu. Toda grande
alegria tem uma nota de triunfo. Descobrimos que onde existe alegria floresce a
criação e quanto mais rica for a criação, mais profunda a alegria.
O Grande Circo
afirmação da vida!