quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Cora Coralina


       


Se achava mais doceira do que escritora. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno. Só em 1965, aos 75 anos, ela conseguiu realizar o sonho de publicar o primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas viveu por muito tempo de sua produção de doces, até ficar conhecida como Cora Coralina, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Juca Pato, em 1983, com o livro Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha. 

      Nascida em Goiás, Cora tornou-se doceira para sustentar os quatro filhos depois que o marido, o advogado paulista Cantídio Brêtas, morreu, em 1934. “Mamãe foi uma mulher à frente do seu tempo”, diz a filha caçula, Vicência Brêtas Tahan, autora do livro biográfico Cora Coragem Cora Poesia. “Dona de uma mente aberta, sempre nos passou a lição de coragem e otimismo.” Aos 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores. Cora, que começou a escrever poemas e contos aos 14 anos, cursou apenas até a terceira série do primário. Nos últimos anos de vida, quando sua obra foi reconhecida, participou de conferências, homenagens e programas de televisão, e não perdeu a doçura da alma de escritora e confeiteira.



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Porteira





Por ela passam os sonhos de um caipira
Aquele que sai de sua terra
Para a cidade grande em busca da felicidade
Que trabalha de sol a sol
Esperando um dia voltar...

E na capital nascem seus filhos
Distantes da vida simples de seus pais
Assim vive o caipira
Saudoso e choroso pela lembrança de criança
Onde montava o cavalo...

Bebia água na fonte
Corria entre os pastos atrás dos vaga-lumes
Assim vivem todos aqueles que sobrevivem longe da terra natal
E só pensa em voltar...

E por sorte um dia ele volta
A alegria lhe salta os olhos
Ao ver os campos tão verdes
E frutas no pé...

Então ele passa pela porteira
Olha o mata-burro no chão
Nessa hora o caipira
Se sente feliz ao voltar a vida de peão...



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Essência do Ensino





Há um povo indígena no Acre que se autodefine Huni Kui, cuja tradução tem o significado de “gente verdadeira”.

Soube  esta tribo transmite os ensinamentos ancestrais para as novas gerações. São belos exemplos sobre a arte de ensinar, educar e trabalhar em equipe. Por meio de rituais simples, mas de grande significado e sabedoria, eles imprimem de forma eficiente, de uma geração para outra, o que vêm aprendendo há séculos.

Por exemplo, a iniciação ao estudo da tecelagem começa sempre na lua nova e antes de uma menina receber as lições a professora coloca sobre os seus olhos duas pedrinhas. Faz uma oração e pede que a criança enxergue mais e melhor do que ela vai ensinar. Em seguida, a avó desta menina leva-a para a floresta e juntas fazem cantigas à jibóia para que esta também ensine com perfeição todos os pontos do tear.

Os padrões da tecelagem da tribo chamam-se kenes e são inspirados no couro da cobra. Durante o tempo do aprendizado, enquanto realiza o trabalho, a aluna canta para chamar a força das pedrinhas e se manter concentrada na tarefa e no estudo. Com certeza estes rituais preparam o aprendiz para a concentração no trabalho a ser executado, a se comprometer com a lição e a estabelecer compromissos contínuos com a qualidade.

Além disso, a tribo tem o seguinte conceito sobre o aprendizado: a melhor maneira de aprender as coisas é fazendo junto. Tudo é ensinado passo a passo. Não há pressa. A aprendizagem como um todo se estende até a fase adulta.

Os meninos aprendem com o pai o serviço dos homens e as meninas com a mãe o trabalho das mulheres. Enquanto vão ensinando, os mais velhos contam histórias sobre o porquê daquele trabalho e daquele jeito. O cacique explica que professores e alunos buscam “a memória do passado para compreender o presente e planejar o futuro.”

É surpreendente que um povo com esse grau de evolução seja chamado de selvagem!

Os trabalhos artesanais e os desenhos desta tribo são reconhecidos pela alta qualidade. Cada padrão de imagem é baseado no couro da jibóia adulta. Como a cobra tem 25 padrões, eles podem fazer desenhos maiores em quantos formatos quiserem. É como lidar com as letras do nosso alfabeto, só que em desenhos. É lógico que temos conhecimentos bem diferentes para passar aos seus filhos.

Nosso modo de viver é outro, talvez mais complicado, com ferramentas complexas e maior amplitude de disciplinas. Lutamos pela mesma sobrevivência de outra maneira e o tempo corre acelerado para nós urbanos.

Mas quero chamar a atenção para o modo como a tribo Huni Kui enxerga o aprendizado: há alguma coisa de sagrado no ato de ensinar e aprender entre eles. Existem rituais como o de fechar os olhos para ver melhor o que a professora ensina; de cantar para louvar o grande provedor de ensinamentos – neste caso, a cobra; de trabalhar alegre e cantando para chamar a atenção do aluno para a concentração no trabalho.

Nós entregamos nossos filhos às escolas e só nos preocupamos com a sua educação de vez em quando, ao darmos uma passada de olhos nos boletins ou quando somos chamados à orientação pedagógica para saber, sempre tarde demais, que nosso filho está com algum problema.

A maioria de nós delega a tarefa sagrada do ensinar às professoras, esperando delas ações que deveriam ser da exclusividade dos pais. Muitos deixam crianças por conta de empregadas domésticas e da babá eletrônica.

Depois, por culpa, enchem as crianças de presentes, mimos e estragos. Não seria melhor ensinar fazendo junto, aproveitar melhor este curto espaço de tempo que temos ao lado doe seus filhos? É pouco tempo mesmo. Quando se fica mais velho percebe-se isto. Então será tarde demais. Os pais se desculpam dizendo que têm que ganhar a vida, o trabalho ocupa todo o tempo, viagens e reuniões sem fim, o trânsito é um caos. Sei que com um pouco de disciplina e esforço pais e mães podem dar um suporte melhor à educação dos filhos.

Quando estiver em casa, na companhia deles, esqueça por completo os afazeres do dia-a-dia profissional e só pense na qualidade da sua presença. Pois se estiver com os filhos e ficar pensando no trabalho, não estará com eles, mas sim no trabalho. Faça como os Huni Kui, gente verdadeira, brinque sério de ensinar seus filhos. As futuras gerações agradecerão.