terça-feira, 30 de novembro de 2010

Lua Cheia




Cheia de quê? De orgulho?
Tem bem razões para isso!
Não lhe dirigimos tantas vezes um olhar sorridente?
Não fizemos já notar a sua beleza a um amigo?
E aquele seu ar imponente quando aparece bem redonda e alaranjada a nascente?

Será Cheia de Queijo?
Sim... não me vão dizer que não sabem que a lua é feita de Queijo!
Que queijo será?
Da Serra? Fresco?
Será de Cabra?
Ah, deve ser um queijo especial
feito com um pouco do leite da via láctea (e anti-alérgico)

Será Cheia... de Vergonha?
Vergonha de quê?
Talvez por não ser verde ou por não ser pentagonal?
Mas porquê, se o redondo lhe fica tão bem?
Ou será que já aprendeu conosco...
a sentir por vezes vergonha de não sermos quem não somos?

Já sei! Cheia de Lua!
Uma Lua bem especial
Que todos os dias roda sem se cansar
Sem se lastimar
Talvez mesmo sem imaginar
Quantos olhares apaixonados
atrevidamente
já a espreitaram...
Santiago Ribeiro

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

É Tempo de Viver




"Que fica meu bem querer, meu estado de viver, meu remanejamento de sensações intáctas até então.

Meu guarda-volumes cheios de coisas boas, minha vida cheia de flores, minhas calçadas mal-pisadas

feitas até então de papelão.

Minha vida que pré-acontece n'outro lugar, nos meus apontamentos mais audáciosos, nos meus desejos mais intensos.

Viver de ações, recebidas e doadas, viver de situações. Crer que há, vida após a vida, e que há morte em cada instante. Meu viver, meu querer, meu servo da vida, eu que piso nas minhas novas calçadas, calçadas de pedras, pretas e brancas, que me levaram ao caminho mais impiedoso, a curva mais imaculada. Irei de frente, marejando a vós pra que não me venha o medo, e para me fortalecer diante das armadilhas."


Santiago Ribeiro

Lamento em Cinza



Os pinheiros da paisagem
não existem mais.
A lembrança
parada na fotografia
desbotou a esperança verde
– da infância, dos sonhos, dos olhos –
que passeavam todas as tardes
pelos pinheiros da paisagem
que não existe mais.
É saudade o que ficou.
Cimentada e fria
nessas paredes pálidas.
O fim de tarde esfumaçado
alonga as sombras do progresso,
fantasmas tristes
dos pinheiros da paisagem
que não existe mais.






Santiago Ribeiro

Monólogo




O que ouves
E interpretas como acalento
Nada mais é que meu lamento

Insensíveis poluíram-me a nascente
Relegaram-me ao apodrecimento
Quando priorizaram o desmatamento

Alteraram meu curso natural
Represaram-se sem nenhum acanhamento
Em nome do progresso, mas a vida em detrimento

E agora quando quase nada mais me resta
Quando irreversível é meu assoreamento
É difícil, mas não impossível o meu reaparecimento

Basta que seus semelhantes
Não me tinjam com seus excrementos
Basta que apenas mudem seus procedimentos

Quero correr livre e ouro como nasci
Levando água para o mais distante povoamento
Com fartura de peixes e vida em todo momento

Quero de novo saciar a sede do ribeirinho sedento
Quero de novo abrigar a piracema, festejar o Nascimento
Comemorar a vida sem nenhum impedimento.

Quero desaguar lá longe
Caudaloso, majestoso, orgulhoso, ressuscitado.



Santiago Ribeiro

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Microcontos

1- Olhou pela janela, não acreditou. Estava lá. Imóvel, mudo. Estátua. Faltavam apenas os pombos. Logo estariam deixando suas marcas, pensou.

2- Suor, ar. Mais ar. O peito carregado, inflou ainda mais. Acordou ofegante.

3- Lutava contra quem não conhecia. Um dragão que movia-se lentamente, um trator. Ou seria um tanque de guerra?

4- Jamais imaginou tanta dor. Hoje via, ouvia e sentia na crueldade humana. Como era possível?

5- Amava aquela mulher, isso era certo.O quê fazer para que ela visse? Isso já não sabia.

6- A sentença veio rápida. Cruel como são as de morte: Leva. Um tiro e o silêncio. Virou as costas, indiferente. Missão cumprida.

7- Olhou para a santa e pediu: a madrinha perdoa? Apalpou o volume embaixo da blusa e saiu. Faria o que tinha que ser feito.

8- Não veria as flores nunca mais. O sorriso sumiu do rosto. Lá fora, só os bêbados, os atrasados, os que não contavam. Perdidos como ele.

9- Lastimava. O quê dizer para a mulher que olhava para ele em súplica? A verdade, nada mais. Respirou fundo. A vida é assim.

10- A cabeça girava. Suor. Via a mãe, o irmão menor. Tudo misturado. Mais um olhar e não distinguiu a cor do céu. Morria, teve certeza.

Deusa Amazônia




Perfeição e atitude
De séqüitos, cépticos e sépticos.
Proclamam salvação
Encontram solidão.

Imagens distorcidas
Querem fazer crer
Num mundo desorientado
Preocupação não há em preservar.

A fé no futuro é maior
Realidade, imagem vã.
Crer é vital arte de poetas e
Sonhadores...

Há uma deusa entre as matas
Faz parte dela como o ar...
Nos rios, riachos correm alaridos
Salvação premente e real
Da selva animal.

Não serão homens a proteger
Qualquer ponto do planeta
Á sua volta só destruição...

No âmago dos sons silvestres
De pássaros e espíritos elementares
Presente, representa conservação
A Deusa Amazônica!

Não tenha pouca fé
Amazônia Deusa
Se auto preservará...



Santiago Ribeiro

O Caos Nosso de Cada Dia



Hoje quando os ponteiros
Registrarem vinte e quatro horas
Mil crianças terão morrido de fome
Neste meu belo país
Da bola e do carnaval
Por isso, escrevo poema de sangue.

Muitos guerreiros da dignidade,
Da igualdade
E dos novos valores
Abandonaram as trincheiras
Ou apontam saídas por uma terceira via
Tentando ignorar os gemidos
Mendigos da miséria
Por isso, escrevo poemas de sangue.

Onde estão os poetas que escreviam pelas ruas?
Que recitavam pra lua?
Que dedilhavam as violas?
Pra ver brotar a semente numa semente de roda.
Não adianta negar:
A televisão ditou e muitos obedeceram.
A ilusão agenciou
E quem na onda requebrou
Não pôde ser seresteiro.
Pois descobriram ligeiro
Que a ignorância de um povo
Sempre rende mais dinheiro
Por isso, escrevo poemas de sangue.

Mas se as ervas daninhas
Não conseguem nunca
Dominar toda a plantação,
Há muitas árvores
Que ainda estão produzindo bons frutos.
Pois é desses frutos que alimentaremos
É dessas sementes que replantaremos
Mas eu lhes afirmo
Que ainda é preciso
Por isso, escrevo poemas de sangue.


Santiago Ribeiro